O fotógrafo do Jardim Tunduro

Personagens de Moçambique

parque tunduro
O sorridente Américo Mbalate. Foto: Lucila Runnacles

Conheci Américo Mbalate em uma das entradas do Jardim Botânico, mais conhecido entre os locais como Jardim Tunduro. Ele estava ali encostado em uma pilastra, com sua câmera reflex pendurada no pescoço, olhando o vai-e-vem dos cidadãos de Maputo, à espera de alguém lhe pedir um retrato.

Américo tinha uma cara tão simpática que não resisti e parei para conversar um pouco. Ele me contou que ganha a vida tirando fotos das pessoas que passam por lá. ”As mulheres são as que mais pedem para tirar retratos. Os homens, só quando estão acompanhados”, disse.

Além do seu sorriso tranquilo, outra coisa que me chamou a atenção foi sua câmera analógica, que resiste ao passar do tempo e ao avanço da tecnologia, que chega sem pedir licença. Indiferente a isso, Américo está orgulhoso do seu instrumento de trabalho. Ele cobra 15 meticais por retrato, aproximadamente R$1. Trabalhando das 8 da manhã às 6 da tarde, esse moçambicano diz que dá para viver disso. ”Também faço casamentos, noivados e reportagens. Gosto desses eventos porque assim ganho um pouco mais do que aqui”.

Parque Tunduro Maputo
Pessoas caminham tranquilas pelo Parque Tunduro, em Maputo.

No Parque Tunduro, Américo não tem a exclusividade de ser o único retratista dali. Na porta principal contei outros sete fotógrafos, mas ele diz que são todos amigos. Ele também me falou que faz fotos há 26 anos e que é feliz com a sua profissão. ”Ora pois, dá para viver disto sim, e ainda tenho a sorte de gostar do que faço”.

Pensei em pedir para ele me fotografar, mas eu teria que esperar até o dia seguinte para ter a foto em mãos, sua câmera é analógica. Então, decidi que eu tiraria um retrato dele. Modéstia parte, acho que ficou muito bacana. É claro que a sua simpatia também ajudou. A única pena é que não posso mandar a foto para o Américo ver. Para minha decepção, ele disse que não tem e-mail.

Me despedi para continuar com o passeio e fui embora pensando em como seria viver sem e-mail e com uma câmera analógica. Pensei no imediatismo ao que estamos acostumados a viver e que alheio a tudo isso, Américo vive tranquilamente; sem pressa, com outro ritmo, em outros tempos…

Se quiser conhecer um pouco mais sobre outras pessoas interessantes da série Personagens de Moçambique:
– Irmã Ferreira, uma senhora muito porreira
– Feliciano dos Santos, o visionário do Niassa

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