O dia em que virei ajudante de filmagem

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Eu e o cineasta Chico Carneiro, em Licole, Moçambique.

A Luana, uma amiga que conheci em Maputo, me mandou um email dando uma boa notícia. Ela me disse que um amigo seu, um cineasta brasileiro, estava filmando um documentário em Lichinga. Mal pude acreditar na coincidência de que outro brasileiro também estivesse por estes lados. Lichinga, que fica a 2.500 quilômetros de Maputo, é a capital da província do Niassa, a menos desenvolvida de Moçambique.

Lichinga ainda está crescendo. Me disseram que há 20 anos a situação era muito diferente. Hoje, a cidade tem uma praça, acho que uns seis restaurantes, um hotel grande, algumas igrejas e mesquitas, entre elas, a infaltável igreja Universal, que parece que se enfia em tudo quanto é canto do mundo. Senhor! Além disso, o maior atrativo deste pequeno lugar, na minha opinião, é o mercado. Centenas de vendedores se apertam entre os corredores desse interessante local onde dá pra encontrar desde pasta de dente, temperos, sabão, frutas e verduras, até móveis, ovos, óleo, peixe, etc.

É muito legal ver como as pessoas se encontram no mercado. Algo como o shopping center nas cidades grandes. Ir ao mercado aqui é um super programa. Eu adoro.

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Este é o maior mercado de Lichinga, uma festa para os olhos. Foto: Lucila Runnacles

Bom, voltando ao assunto principal, entrei logo em contato com o Chico Carneiro e marcamos de ir jantar. Depois, seguimos a nossa conversa no bar da frente, acompanhada de uma Manica, uma das cervejas moçambicanas, muito boa por sinal. Papo vai papo vem, nos contamos como tínhamos vindo parar aqui e também conversamos sobre as diferenças culturais entre brasileiros e moçambicanos. O Chico já é um profundo conhecedor do país. Ele mora em Moçambique há 30 anos.

Esse dia fui dormir pensando em como de vez em quando é bom bater papo com um conterrâneo que vivenciou coisas parecidas com as suas.

Dois dias depois, o Chico me convidou para acompanhá-los nas filmagens. Topei na hora. Acordei às 6.30 e lá fui eu com a trupe rumo a Licole, uma vila muuuuito pobre, que está a cerca de 20 quilômetros de Lichinga.

O Chico está fazendo um documentário sobre o uso da terra no país, a pedido da ONG moçambicana Centro Terra Viva (CTV). Nos últimos anos, dezenas de empresas estrangeiras têm vindo ao país para explorar os recursos naturais moçambicanos com a promessa (e aprovação do governo) de melhorar a qualidade de vida da população. Bom, isso é o que eles prometem quando fazem seus acordos com o goveno de Moçambique, mas o problema é que a maioria dessas empresas acaba não cumprindo com suas promessas, e adivinha quem sofre com essa “exploração”? Ahan, obviamente é a população local.

Esse assunto já é um velho conhecido por aqui. Algumas pessoas defendem as empresas e dizem que elas cumprem sim com seus acordos, mas é o governo moçambicano que não repassa os benefícios para a população. Outros adotam o discurso de que se não fosse pelas empresas estrangeiras, o país não teria dinheiro nem tecnologia para explorar esses recursos naturais, e que o papel dos investidores não é social, isso é função do governo de Moçambique. Enquanto outros dizem que são as empresas internacionais que se aproveitam da ingenuidade dos moçambicanos e vem pra cá usar e abusar dos recursos naturais do país. Well, o debate está aberto!

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Os moradores olhavam curiosos para o equipamento de filmagem. Foto: Lucila Runnacles

Voltando ao documentário, quando chegamos em Licole, muitos moradores vieram nos receber. Várias crianças, mulheres e homens olhavam curiosos as máquinas fotográficas, a filmadora e o grande microfone. Depois de alguns minutos, fomos até a casa do régulo (autoridade tradicional da vila) e a entrevista começou.

O Chico queria saber como tinha sido o acordo entre a comunidade e a empresa florestal Chikweti, que está plantando pinheiros nas machambas (pedaços de terra cultivável dos moradores). No futuro, a empresa holandesa vai exportar essa madeira. Segundo o régulo, apesar de terem assinado um contrato recentemente, a população ainda não viu a cor do dinheiro que foi prometido pela Chikweti, em troca das terras cedidas, entre outras promessas.

Moçambique está vivendo um boom de investimento estrangeiro, mas, por outro lado, a taxa de alfabetização é baixíssima; quase a metade dos moçambicanos ainda não sabe ler e escrever. Sem falar da expectativa de vida da população, que não ultrapassa os 52 anos de idade, uma das mais baixas do mundo.

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As autoridades da vila. O régulo é o último da direita. Foto: Lucila Runnacles

Uma das últimas descobertas foi uma bolsa de gás natural, a maior da África, encontrada na província de Cabo Delgado. Segundo ecologistas, as prospecções desse material ameaça destruir o rico ecossistema da região. Mas será que as autoridades do país ligam pra isso?

Outro ponto sensível aqui é a exploração do carvão, que também traz consequências ambientais. Na província de Tete, há cerca de 40 multinacionais explorando o mineral, entre elas a brasileira Vale. Mas o que muita gente se pergunta é onde vai parar o dinheiro deixado por essas explorações?

Aos poucos, algumas vozes estão se levantando para mostrar essa estranha e triste situação. O documentário que o Chico está produzindo é uma pequena ponta de esperança para que no futuro as coisas mudem, para que assim os moçambicanos possam ser os maiores beneficiados pela exploração que as empresas estrangeiras estão fazendo das suas riquezas.

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Uma das moradoras que viu como a sua machamba encolheu depois que a Chickweti se instalou por ali. Foto: Lucila Runnacles

Eu curti a experiência de ter sido assistente. Bom, na verdade, só ajudei a segurar o roteiro, uma garrafa de água e ver quanto tempo de sol tinha para filmar entre uma nuvem e outra.

O documentário ainda não tem nome e o lançamento está previsto para novembro de 2012. E quem quiser saber mais sobre o trabalho do cineasta Chico Carneiro, pode entrar em contato com ele por email, chicocarneiro@gmail.com.

Até a próxima semana com mais histórias de Moçambique!!

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