“Chapa-aventura”, vai encarar?

chapa lichinga
Nos chapas vai de tudo em cima.

Aqui em Moçambique é muito comum as pessoas andarem em “chapas”; vans, que poderiam até ser um transporte normal, se não fosse pelo fato de que esses carros estão sempre mega super hiper ultra lotados de gente.

No país inteiro é assim, mesmo em Maputo, que deveria ter um sistema de transporte pelo menos decente, as vans estão sempre cheias até a tampa. É uma pena ver como as pessoas têm que se virar nos 30 pra se locomover de um lado pro outro. Sem falar que também existem os chapas abertos, super perigosos. Nesses veículos as pessoas viajam nas traseiras de caminhões, muitas vezes sentados no meio de material de construção, troncos ou sacos de comida.

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Esses são os chapas abertos, mais perigosos ainda.

Durante as duas semanas que passei em Maputo não peguei nenhum chapa porque optei por caminhar para conhecer mais a cidade, e também porque esses carros passavam sempre tão cheios que eu não sabia nem como fazer pra entrar.

Em Lichinga, onde estou morando agora, tive minha primeira experiência de chapa. Ahhhh, foi uma aventura e tanto. Fui para o Lago Niassa, a maior atração turística da região. O trajeto de 110 quilômetros durou 2 horas de semi tortura.

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Pra vocês terem uma ideia, a van tinha lugar para 15 pessoas, na teoria. O carro saíu e logo começou a encher. Parada que fazia, gente que subia com sacolas, bacias, bolsas,  baldes, crianças, comida, etc. Em um momento contei, éramos 25 na pobre vanzinha. Nessa hora decidi falar com o cobrador, que ia pendurado do lado de fora: – Ô, moço, já não cabe mais ninguém aqui não. Você não tá vendo que não dá nem pra gente se mexer aqui dentro??

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“Surf-chapa”. O Nhica fez essa foto em uma viagem ao Lago Niassa

Meu Deus, quando me dei conta eu estava viajando com as pernas quase no pescoço, do aperto que era aquele carro. Lá fui eu tentar (em vão) mais uma vez: – Ô, motorista, chega, né? Isso aqui tá parecendo sardinha enlatada, eu hein? Eu reclamava mais pra ver se o povo começava a dizer algo também, mas não teve jeito. Ninguém falava nada, todo mundo quieto, e eu, pasma!

O Nhica, meu colega moçambicano que estava sentado ao meu lado, me disse que as pessoas não reclamam porque estão acostumadas e também porque não conhecem outra realidade. Pra eles, viajar assim é normal.

E a história continua, ainda faltava uma hora pra chegar e de repente senti uma coisa picando minha bunda! Esperei um pouco pra ver se era minha imaginação por causa do calor e do aperto, mas minutos depois, senti uma picada mais forte. Quando consegui me mexer um pouco, vi uma abelha bem faceira ali no banco. Ahhhh não acreditei, com tanta bunda boa pra picar, ela foi escolher justo a minha 🙁

Imaginem como estava meu humor nessas alturas. Tentei olhar a paisagem, reparar nas casas e no que as pessoas vendiam no meio da estrada, pra ver se eu me distraia. Foi quando ouvi um méeeeeeeeee. Acreditem se quiserem, era outra van que passava com um cabrito amarrado no bagageiro. Era méeeeeeee pra tudo quanto era lado. Parecia filme, mas era tudo real, real até demais. Logo adiante, um policial parou o nosso carro na estrada. Ufa! Pensei, beleza agora esse motorista vai ver só. Mas foi pura ilusão. O policial não fez mais do que contar quantas pessoas tinha lá dentro (capaz que ainda achou que era pouca gente), cumprimentou o motorista e mandou seguir. Não acreditei de novo! Os locais me contaram que os policias sabem muito bem como as pessoas viajam aqui, mas há muita conivência e corrupção entre os que dirigem as chapas e as supostas autoridades. Que beleza, hein?

E lá fui eu de novo: – Nhica, ainda falta muito? Ele, todo paciente, responde: – Já vamos chegar, é logo ali depois das curvas. Ufa! Duas horas depois, mal acreditei quando avistei o lago lá longe. Finalmente chegamos e eu saí do carro que nem rolha de champagne, na pressão mesmo!

Agora, depois da ralação, quando penso nessa aventura até acho que foi divertido ter passado por essa experiência, mas o que mais me incomoda é pensar que a maioria dos moçambicanos têm que passar por isso diariamente. Eles não têm opção!!

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Pessoas dividem espeço com material de contrução, troncos, etc, nas traseiras dos chapas.

Encontrei uma frase do escritor moçambicano Mia Couto, um dos mais famosos no país, que resume bem essa triste história: Quem não tem poder é como quem circula na traseira do chapa: não existe.

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