Viajar = felicidade + despedidas

“Quando criança não nos despedimos dos lugares. Pensamos que voltamos sempre. Não acreditamos que é a última vez”. Faz pouco tempo li essas palavras num livro do Mia Couto, o famoso escritor moçambicano. Essas frases me marcaram bastante.

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Eu já viajei muito, conheci centenas de lugares, senti cheiros que meu nariz nunca tinha detectado antes, vivi emoções que me preencheram por alguns minutos e me acompanharam em muitos momentos. Tenho milhares de fotografias na minha cabeça e no meu HD, aprendi a falar várias palavras em vários idiomas, entendi que é melhor não sentir saudades daquilo que não se pode ter naquele momento, percebi que é ótimo estar aberto a provar as comidas locais e deixar o estrogonofe com batata palha e a lasanha para quando volto pro Brasil.

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Matapa, feita com folha de mandioca, meu prato favorito de Moçambique

Também me dei conta de que quando chego a uma cidade prefiro conhecer o máximo que posso, porque nunca sei quando vou ter que partir de novo. Aprendi a não ficar triste com as despedidas, a valorizar um novo amigo. Eu me orgulho quando olho o mapa mundi e vejo quanto já percorri. Adoro lembrar que já realizei um dos meus grandes sonhos; ser jornalista de viagens.

Gosto de ver como aprendi a reter uma sensação ou uma imagem na minha mente pra levá-la sempre comigo; quando gosto muito de uma paisagem, costumo olhá-la bem forte por alguns minutos, assim ela fica bem guardada na minha retina e me acompanha quando eu quero relembrar esses momentos.

Por outro lado, ter aprendido a não ficar triste com as despedidas me fez achar, por alguns momentos, que isso tinha me transformado numa pessoa fria. Mas hoje entendo que essa foi a única maneira que meu cérebro encontrou para não sofrer com cada amigo que partia ou cada vez que eu tinha que dizer até logo. Percebi que isso vem junto com o pacote de viajar, experimentar e mudar de cidades tantas vezes.

Me dei conta de que o mais importante é viver o momento. Quando alguma amiga me conta que seu coração está partido porque conheceu alguém que vive em outro lugar e me diz que não vai aguentar, costumo dizer que podemos ver isso desde outra perspectiva; há milhares de pessoas neste mundo e o mais difícil é encontrar pessoas “compatíveis”. O mais importante é ficar com as memórias boas desse encontro e de que pelo menos existiu.

Em 2001, quando viajei pela primeira vez para morar em Londres por um ano, uma das coisas que eu mais queria era voltar diferente para o Brasil. Queria ser uma pessoa mais descolada, mais aberta, queria uma mudança real em mim. Lembro que cada vez que eu ligava pra minha mãe, naquela época eu não tinha laptop, não existiam as chamadas baratas por Voip nem o tal do What’sApp. A gente só se falava uma vez por semana e eu perguntava se ela notava alguma mudança em mim. E a minha mãe respondia: “Filha, eu não posso sentir isso pelo telefone. Faz apenas um mês que você saiu daqui”. E toda vez era a mesma coisa, cada vez  que eu ligava fazia a mesma pergunta.

Bom, eu só me dei conta de que realmente tinha mudado quando voltei para Curitiba, um ano depois. Senti que estava mais aberta, menos julgadora, mais tranquila e que tinha aprendido muitas coisas com essa experiência morando fora. Com o tempo também fui reconhecendo outras mudanças e hoje, 12 anos depois, acho que todas elas serviram para moldar um pouco mais minha personalidade e a minha maneira de encarar as tantas despedidas a que estamos sujeitos os que viajamos muito.

Não me queixo, afinal de contas, faço o que sempre quis; viajar e conhecer o mundo.

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Centro de Lichinga

Desta vez a despedida é de Lichinga, a pequena e especial capital do Niassa, no norte de Moçambique. Vim pra cá fazer um voluntariado na ONG Estamos, onde fui muito bem recebida por todos.

A cidade é pequena e aqui as pessoas vivem de uma maneira muito simples. O tempo tem outro ritmo, não há tantas atrações como nas grandes cidades, mas há muita coisa para se aprender. É engraçado como no começo me chamava muito a atenção ver as mulheres indo buscar água no poço, os cabritos soltos, as pessoas sentadas na rua vendendo coisas no chão, a terra vermelha, a falta de calçadas, a pouca variedade de marcas e produtos, a falta de luz pelas noites, o tempo que rendia muito, a paisagem e as sensações eram diferentes daquelas que eu estava acostumada…

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Tudo isso me chamava a atenção, e agora percebo que essas coisas já viraram normais pra mim.

Não deixo de me surpreender com meu poder de adaptação. Pensei que se por alguma razão eu tivesse ou escolhesse morar aqui, ficaria sem problema algum. Me dei conta de que somos seres totalmente adaptáveis e moldáveis. Não sei se domesticáveis, mas adaptáveis acho que sim.

Esse é o pessoal que trabalha na Estamos, onde eu fiz o voluntariado
Esse é o pessoal que trabalha na Estamos, onde eu fiz o voluntariado

Meu voluntariado está chegando ao fim e faltam poucos dias para que eu deixe Lichinga. Por isso, no último sábado escolhi caminhar pelos corredores do mercado central para começar essa despedida aos poucos.

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Passei pelos vendedores de frutas, de verduras, de sabão, dos bombons argentinos, que viraram meus grandes companheiros. Também percorri o corredor de peixe seco e pensei que talvez eu sinta saudades até desse cheiro forte.

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De bicicleta também passei pelo avião português abandonado, que segundo me contaram, caiu aqui perto na época da guerra da independência de Moçambique, mas ninguém sabe a data certa. Não esqueci de passar na frente do Cinema ABC, que um dia foi o maior ponto de encontro dos moradores de Lichinga, e hoje é sede da Igreja Universal.

É isso mesmo, eles conseguiram chegar até aqui. Senhorrrr nos salve! Também passei para dar um abraço na Irmã Ferreira, a freira de 83 anos, que dedicou metade da sua vida em prol das pessoas carentes de Lichinga, passei no supermercado Socin, para comprar alguns pacotes de bolachas do Brasil. Ahan, aqui tem bolachas de goiabinha brasileiras, minhas favoritas.

irmã ferreira
A simpática irmã Ferreira

E sabem que enquanto eu fazia esse passeio lembrei da minha filosofia viajante? Daquilo que aprendi logo que cruzei o Oceano Atlântico pela primeira vez; que o importante é ter conhecido novas pessoas e lugares interessantes, isso é o que vai me acompanhar até o fim. Às vezes imagino que quando eu ficar velha e não puder mais viajar, vou adorar contar estas minhas andanças pelo mundo e assim vou preencher meu tempo, só lembrando.

O bom da vida é ter experiências, provar o diferente, porque isso ninguém tira da gente, isso podemos carregar sempre conosco…e assim como as crianças, eu também faço o mesmo; nunca me despeço dos lugares nem das pessoas, acredito que sempre vou poder voltar!!

A música (Pangira) do vídeo é dos Massukos, um grupo de Moçambique, que eu adoro! Aliás, o Simão e o Santos, dois dos fundadores do grupo, trabalham na Estamos onde fiz o voluntariado em Lichinga.

Se quiser saber mais sobre a minha experiência de voluntariado e de outros viajantes. Aqui tem mais posts:

Voluntariado em Moçambique
Volunturismo
Voluntariado na Índia

10 Comments

  • Olá Joachim. Que bom que você gostou. Muitas vezes sinto saudades de Lichinga, das pessoas que lá conheci e da experiência de ter feito um voluntariado lá. Ainda quero muito poder voltar a África algum dia de novavmente. Abraços e continue acompanhando o blog!!

  • Gostei de recordar Lichinga, aliás Vila Cabral. Vivi lá até ao fim do período colonial português,ou seja até 1974 tinha então 10 anos. Ficou lá a minha infância.
    Que saudades daquele cinema ABC! Era então um novo e belo edifício, para a época.
    Fiquei sempre com a saudade e a vontade de regressar. Com essas fotos que colocou no blog, regressei um pouco. Precisava de ver outros locais dessa cidade, atualmente tão degradada. Mas o espírito está lá, nas fotos!
    Obrigado Lucila,

  • Maravilloso Lucila, como siempre me has sorprendido con tu generosa visión de la vida y de las personas. Es cierto que muchas veces las despedidas son duras, pero a menudo nos ayudan a recordar con más intensidad las experiencias, sonrisas, imágenes que hemos vivido. No dejes de viajar y regalarnos estos momentos.besos

  • Las despedidas están indefectiblemente presentes en todos los viajes, por lo que bien vale la pena el relato que les dedicaste. Muy bueno!
    Agrego una frase (usualmente atribuida a García Marquez): No llores porque terminó; sonríe porque sucedió.

  • Lindo artigo, belas fotos e inesqueciveis lembranças. Estou curiosa quanto ao proximo destino que voce ira nos levar!!

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