Como ser voluntário em um campo de refugiados

Voluntários da Argentina, Albânia, Brasil, Suíça, Canadá e Itália juntos
Fazer voluntariado, doar meu tempo e compartilhar as minhas habilidades é uma das coisas que mais me dá alegria nesta vida. Eu acabei de voltar de uma experiência incrível de voluntariado em um campo de refugiados na Grécia, em Chios, e quero compartilhar com vocês como foram esses dias.

Alegria, tristeza, impotência, comprometimento, aceitação, fraqueza e esperança, esses foram os sentimentos e sensações que senti durante os dias que trabalhei como voluntária no campo de refugiados de Souda, na ilha grega de Chios. Essa ilha fica a só 7 km da costa da Turquia.

Já fazia muito tempo que eu tinha essa vontade e nesta última viagem que fiz a Europa consegui conciliar as duas coisas, um pouco de turismo e voluntariado. O que também é conhecido como volunturismo.

Esse é o campo de Souda, onde fiz o voluntariado. No início havia mais de mil pessoas lá. Agora, esse lugar está para ser fechado e só há homens sozinhos nas instalações. As famílias, mulheres e crianças foram levadas para outro campo.

O campo de Souda foi construído nas redondezas de um antigo castelo

Por que refugiados?
Algumas pessoas me perguntam por que eu escolhi fazer um voluntariado com refugiados. Eu estive na Síria em 2009 e me encantei por esse país e pelo seu povo, e desde que a guerra civil começou eu me preocupo muito pelo assunto. Não consigo aceitar que pessoas tenham que abandonar suas casas, seus familiares, seu bairro, seu país e tenham que deixar tudo para trás de uma hora pra outra.

Eu já morei em cinco países diferentes e sei o quanto é difícil ser estrangeiro morando longe. E olha que sou imigrante (porque atualmente moro em Buenos Aires) por opção. Mudei de países porque quis. Já um refugiado, muitas vezes, não tem escolha. Se ficar, pode morrer. Se tentar fugir, pode morrer também. Por todas essas razões e muitas mais, eu simpatizo bastante com os refugiados.

Acho que todos os seres humanos têm o direito de imigrar e tentar a sorte em outro país. Mas os casos dos refugiados que eu encontrei na Grécia é ainda pior; muitos deles estavam nesses campos há mais de um ano à espera de alguma resposta do governo grego para receber ou não asilo e a permissão de ficar legalmente vivendo na Europa.

Refugiados à espera de alguma resposta dos governos

Como ser voluntário?
Dois meses antes de viajar para a Europa eu comecei a procurar pela internet por ONGs que estivessem trabalhando nas ilhas gregas e comecei a ver que tipo de voluntariado eu poderia fazer.

Vi algumas vagas para professora, para ficar de plantão na praia à espera da chegada de algum barco, para fazer recreação com crianças, etc. Muitas ONGs pediam uma estadia mínima de 3 semanas e eu não tinha todo esse tempo, infelizmente.

Então acabei optando pela Drop in the Ocean que pedia um tempo mínimo de 10 dias. Essa ONG é da Noruega e estava trabalhando em Chios. Os requisitos deles é que o voluntário tenha mais de 25 anos e que saiba inglês em um nível de conversação.

Eu sabia que queria ir para alguma ilha, não para tomar sol ou pegar praia. Aliás, isso foi o que eu menos fiz. Porém, gostava de pensar na sensação de ver o mar para me ajudar a enfrentar os dias que passaria ali. Eu sabia que estando perto do mar seria mais fácil.

Antes de enviar um email me candidatando, procurei saber um pouco mais sobre a reputação da Drop in the Ocean e tive várias referências positivas de outros voluntários. Essa é uma boa dica, procurar referências das ONGs antes de aceitar qualquer coisa.

Voluntariado

Na ¨cozinha¨participando na distribuição das refeições

O que eu fiz lá como voluntária? No campo de Souda o dia começava logo cedo com a distribuição do café da manhã às 8h. Os voluntários ajudávamos na distribuição e também na ordem das filas. Depois disso, entre as 10h e o meio-dia era hora da recreação. A gente sentava nas mesas de metal do lado de fora do campo e abria uma grande caixa com jogos de mesa, baralho e algumas folhas para pintar.

Os homens gostavam de sentar ali para jogar dominó, mostrar suas músicas nos celulares e passar a manhã conversando com os voluntários. Essa era uma das atividades que eu mais gostei de fazer.

Muitas vezes o dia do refugiado no campo é igual ao dia de ontem e vai ser muito parecido ao dia de amanhã, então qualquer coisa pode ser uma distração para eles. Eu adorava quando eles nos ensinavam a fazer pulseiras ou a jogar algo da cultura deles. Esse, por exemplo, é um jogo da Palestina. É uma espécie de jogo da velha misturado com dama, muito legal.


O almoço era servido do 12h30 às 14h e os voluntários ajudávamos na distribuição da comida novamente. Na parte da tarde tinha o beach watch, que nada mais era distribuir água gelada para quem passasse por ali. Fiz o voluntariado entre agosto e setembro, época de bastante calor na Grécia, e um copo de água gelada era sempre bem-vindo. Esse espaço que era do que uma mesa de madeira na sombra, também servia para ler algum livro e trocar um pouco de inglês por árabe, coisa que eu adorava fazer.

A ideia também era manter um olho no mar, caso alguma criança tomasse banho sozinha, mas para a nossa sorte as crianças estavam quase sempre acompanhadas dos seus pais.

Já no fim do dia, das 18h às 20h, era hora de servir o jantar. O trabalho de voluntariado em si não era cansativo, mas sim  puxado pela quantidade de horas e pela difícil situação das pessoas ali que muitas vezes contavam histórias muito tristes sobre as suas vidas. Eu diria que não foi um trabalho braçal e sim, mental.

Gastos
A maioria das ONGs que pesquisei na Grécia não oferece absolutamente nada, nenhuma ajuda de custo ao voluntários. Por isso, se você também está pensando em fazer um voluntariado desse tipo, vai ter que ter alguma reserva financeira.

No começo eu não entendia por que as ONGs não poderiam nem ao menos oferecer alguma ajuda com alimentação ou moradia, mas depois entendi que o dinheiro que eles recebem de doações é usado integralmente para ajudar os refugiados.

Para se ter uma ideia de quanto é preciso levar, descrevo meus principais gastos em Chios. Eu fiquei hospedada em uma casa que reservei pelo Air Bnb, de vez em quando comia em restaurante e muitas vezes fazia compra no supermercado e cozinhava na casa para economizar.

Aluguel (quarto dividido em uma casa de Air Bnb) – 20 euros por dia
Alimentação (almoço ou jantar em um restaurante normal) – 7 a 10 euros por refeição
Transporte – nenhum gasto porque fiquei alojada perto do campo e fazia tudo a pé
Ferry de Atenas a Chios – 42 euros

Resumindo, por dia eu tive um gasto médio de uns 35 euros, sem contar o ferry de ida e volta até Atenas. Obviamente é possível gastar um pouco menos, principalmente se não quiser comer em restaurante, mas como a comida grega é muito boa e os preços não eram tão caros, de vez em quando eu aproveitava e comia fora.

Como eu já contei, neste caso de voluntariado com refugiados eu não encontrei nenhuma ONG que desse ajuda de custos, mas sempre vale procurar. As ONGs que fiquei sabendo que davam alguma ajuda econômica de moradia era para voluntários long term (por tempo prolongado). Eu acabei fazendo o voluntariado por 12 dias e adoraria ter ficado mais tempo.

Dicas


– Procure bastante informação e referências sobre a ONG antes de aceitar qualquer coisa;
– Tente falar algumas palavras na língua dos refugiados. Um olá, obrigada, como é o seu nome, pode fazer toda a diferença;
– Faça um seguro de viagem antes de partir. Eu não utilizei o meu, mas sempre é bom ter um por precaução. Um dia no campo eu bati minha perna em uma ponta de um banco enferrujada, coisa boba, mas começou a sangrar. Como o banco estava enferrujado, eu fiquei preocupada. Acabei passando um desinfetante ali mesmo e parou de sangrar, mas se tivesse infectado ou acontecido algo mais grave, por uma bobeira dessas eu poderia ter parado no hospital e sem seguro poderia ter sido ruim;
– Seja respeitoso e tanha paciência com os refugiados. Eles estão passando por um momento muito difícil e com certeza você está numa situação melhor que a deles;
– Se quiser saber mais, aqui tem outro post que escrevi sobre volunturismo.

Experiência

Prepare-se para fazer bons amigos. Essa é a Sofia, uma nova amiga portuguesa

Quase todos os dias eu tinha uma história diferente para contar. Ao longo dos dias, fui percebendo que o nosso maior trabalho era realmente sentar e ouvir o que os refugiados tinham para contar. Me dei conta de que eles precisavam mesmo era de alguém que os ouvisse e de certa forma os respeitasse como seres humanos. E isso foi o que eu mais fiz por lá.

Muitas vezes tentei ser forte ao ouvir histórias de caras que perderam suas esposas (grávidas) em bombardeios, de pais que venderam tudo o que tinham para pagar as passagens aos traficantes, entre tantas outras histórias terríveis. Eu me mantinha forte enquanto estava na frente deles, mas ao sair do campo muitas vezes eu chorei de raiva, de tristeza e de impotência.

Este post é parte da série #RefugeesWelcome, relatos que escrevi durante o voluntariado que fiz no campo de refugiados de Souda, na ilha de Chios. São vários relatos que você pode acompanhar também aqui.

Como ajudar sem viajar?
Não tenho dinheiro para viajar pra Europa agora e fazer um voluntariado num campo de refugiados, mas adoraria ajudar. Muita gente me pergunta como fazer para ajudar refugiados e eu sempre digo que não é preciso viajar pra isso.

No Brasil, por exemplo, há muitos refugiados da Síria, Venezuela, da África, entre outros lugares, e com certeza muitos deles estão precisando de ajuda. Você pode ajudar com doações, ensinando português ou compartilhando a sua profissão, que pode ser dentista, médico, psicólogo, etc. Procure pela internet ONGs, associações, grupos na sua cidade que trabalhem com refugiados.

Se você tem essa vontade, procure e ajude. Acredite, a recompensa é enorme. Você vai ver que vai receber muito mais do que dará!! A recompensa chega em outra moeda: um sorriso sincero e uma grande paz no coração. Se quiser ler sobre o voluntariado que fiz em Moçambique, na África, confira aqui.

Alguma dúvida sobre voluntariado com refugiados ou quer compartilhar a sua experiência de voluntariado? Vou adorar saber. É só deixar um comentário aí embaixo.

8 Comments

  • Oi, Felipe. Que legal que você também queira ajudar. Olha, realmente é necessário falar inglês em um nível médio para fazer voluntariado com refugiados porque esse é o idioma em que todos se comunicam por lá e também o que a maioria dos refugiados fala, além do árabe, farsi, etc. Na minha opinião, é importante saber um pouco de inglês. Se você sabe espanhol e quer ter a oportunidade de ser voluntário, poderia procurar em algum país da América Latina que também há muita necesidade. Um abraço e boa sorte.

  • Oi Lucila! Belo relato da sua experiência. Adorei e quero tentar fazer o mesmo, agora nas minhas férias de final de ano. Você sabe se a Drop in the Ocean aceita voluntário que não fala inglês? Tenho nível intermediário de epanhol…Mas, muita vontade de ajudar! Obrigado por despertar a vontade de ajudar! Felipe de Souto – Tubarão – SC

  • Olá, Alexandre. A melhor coisa seria você escolher primeiro para qual país gostaria de ir e daí começar a procurar ONGs pela internet e também grupos específicos no Facebook costumam publicar informações. Se você estiver interessado em fazer voluntariado na Grécia com refugiados, neste link você vai encontrar bastante informação. http://www.greecevol.info/task.list.php
    Abraços.

  • Olá Lucila….

    Eu gostaria de saber como eu faço para ser um voluntário num campo deste ou você poderia me indicar alguma outra ação. Aguardo seu retorno e muito obrigado!!!

  • Oi, Isadora, obrigada por compartilhar a sua experiência também. Foi tão forte e enriquecedor, como você diz, que adoraria voltar. O campo de Souda está sendo fechado agora e provavelmente dentro de poucas semanas já não exista mais. Só espero que todos os que estão lá possam ter realmente um futuro melhor em outros países. Um abração.

  • Tive uma experiência semelhante no campo de Moria, em Lesvos, também na Grécia, e isso está no topo das coisas mais incríveis que vivi. Os dias são realmente bastante iguais, e coisas que pra nós são simples e comuns, pra eles tomam uma outra proporção. É muito gratificante. Acho que a gente também acaba passando a enxergar a nossa própria vida com outros olhos… essa sensação de impotência e o choro é a mais pura verdade! Fiquei 15 dias e chorei baldes no último… se Deus quiser volto em breve! Até mais!

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