De férias – #RefugeesWelcome

A hora das refeições é um dos melhores momentos para conversar com os refugiados. Enquanto esperam a sua vez na fila para receber a comida, dá tempo de trocar algumas palavras e saber um pouco mais sobre as suas vidas.

Em segundo lugar na fila, com um leve sorriso ele me comprimentou com a cabeça. Rapidamente lembrei que ele é o afegão que cruzou 4 fronteiras até chegar aqui na Grécia. Hoje ele vestia camiseta branca, calça preta e chinelo de dedo. Faz bastante calor, mas ele parecia não se incomodar com isso.

Seus dois filhos menores estavam brincando do lado de fora da fila. As crianças devem esperar fora da fila por questão de segurança. Embora o clima esta semana esteja tranquilo, na semana passada houve momentos de tensão na hora de entrega das refeições. A maioria dos refugiados que estão aqui em Souda esperam há mais de 6 meses por alguma resposta do governo grego e estão literalmente cansados e de saco cheio. Por isso, algumas vezes o ar pode ficar tenso por aqui, mas hoje não foi o caso.

H. está na fila dos ¨left overs¨. Há dois campos de refugiados em Chios; o de Vial, que é comandado por militares e segundo contam é um péssimo lugar, e o de Souda, onde estou trabalhando como voluntária e onde o clima é aparentemente tranquilo e até mesmo divertido as vezes entre os mais jovens.

Os refugiados de Souda têm prioridade para receber a comida e são servidos sempre primeiro. Quem está alojado em Vial, quando consegue entrar no ônibus que faz o trajeto de 10 km, pode tentar a sorte de pegar alguma refeição se houver ¨left overs¨ (comida que sobra).

Cheguei perto de H. e comecei como sempre.

– Sabah hul haire (Bom dia!)
– Sabah al nur (Bom dia!)
– Kifek? (Tudo bem?)
– Alhamdulillah (Graças a Deus)

Ele estava sendo muito gentil e carinhoso com seus filhos e na hora me veio a pergunta.

– H. o que você diz para os seus filhos sobre este lugar? Eles te perguntam onde estão?
– Claro, toda hora. Pai, onde está a nossa casa? E o nosso carro? Por que estamos aqui?
– E o que você diz?
– Filhos, nós estamos aqui de férias. Viemos pra cá para entrar no mar e curtir uma praia. Viu que lugar mais lindo?
– Entendo. Mesmo porque seria muito difícil para as crianças entenderem que estão num campo de refugiados, eu acho.
– E também costumo dizer pra eles praticarem a paciência. Pelo menos acho que este lugar vai servir para que eles possam ser mais pacientes. Aqui temos que esperar por tudo e por muito tempo.

Esta história é parte da série #RefugeesWelcome, relatos que escrevi durante o voluntariado que fiz no campo de refugiados de Souda, na ilha de Chios. São vários relatos que você pode acompanhar aqui no blog.

Se quiser ler mais sobre a minha experiência como voluntária no campo de refugiados na Grécia, confira aqui.

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